O valioso tempo dos maduros.sábado, 10 de julho de 2010
Poesia de Mário Andrade
O valioso tempo dos maduros.terça-feira, 6 de julho de 2010
A minha simples homenagem à escritora Matilde Rosa Araújo, morreu hoje aos 89 anos de idade.

O SOL E O MENINO DOS PÉS FRIOS
Era uma vez uma casa.
Muito grande.
Com um tecto altíssimo, nem sempre azul.
Uma casa enorme onde habitava uma grande família.
Uma família tão grande que, por vezes, não julgavam os seus membros que se conheciam.
E se deviam amar.
Houve um menino que entrou nesta casa estava ela toda branca.
No chão tapetes de neve, cristais de água de uma brancura que estremecia.
E as próprias árvores escorriam essa brancura.
E frio.
Iluminava-a uma estrela tão brilhante que, sobre o tecto, parecia que poisava sobre as nossas mãos.
Ora um dia, em que fazia anos em que esse menino entrara nessa casa, outro menino por ela andava com frio.
Pelo chão, pelos milhões de cristais, caminhavam os seus pezitos enregelados.
Tanto frio que nem podia olhar a estrela brilhante.
Nem os milhões de cristais que pisava.
Uma mulher chorava a um canto dessa casa.
E era triste essa mulher.
Estava triste e cansada.
Na casa nem tudo era belo.
Ali estava aquele menino cheio de frio.
E, como ele, tantos meninos.
E, já há quase dois mil anos, um menino entrara na asa, que ficou mais clara com a luz brilhante do tecto.
O menino entrou só para dizer uma palavra pequenina:
AMOR.
Então essa mulher perguntou ao menino dos pés frios:
– Tu não tens a tua casa?
O menino olhou a mulher triste e ficou triste.
Ambos estavam tristes.
E disse quase envergonhado que não.
– Tu não tens roupa?
Sapatos?
Um lume?
Pão?
A cabeça (tão linda!) do menino ia abanando sempre a dizer não.
A mulher triste começou a ter vergonha.
Então ela consentia que na sua casa, na casa de todos, de tecto nem sempre azul, houvesse um menino sem roupa, sem lume, sem pão?
Ela consentia uma coisa assim?
E os outros também?
Escorregaram-lhe pela face já enrugada duas lágrimas transparentes.
De água.
Água como a que tombava do tecto, como a que se estendia nos mares.
E perguntou mais ao menino:
– E para onde vais?
Eu dou-te qualquer coisa para o caminho...
O menino olhou para ela admirado.
Não lhe disse para onde ia.
Observou-lhe apenas:
– Tens duas gotas de água nos teus olhos que reflectem o céu azul e a lâmpada do tecto.
Não sentes?
A mulher deixou cair pelo rosto enrugado as duas lágrimas.
A pele, então, ficou-lhe mais lisa.
E ela tornou-se menos curva.
Ergueu-se.
Estendeu, sorrindo, os dois braços ao menino.
E disse:
– Fica.
Perdoa.
E o menino ficou.
Nos seus braços.
Encostado ao seu peito.
Com os pés aquecidos sobre o campo de neve.
E a mulher entendeu que não adiantava chorar ao canto da casa.
E o seu vestido era uma bandeira.
E o seu coração uma flor.
Com o menino a seu lado.
domingo, 20 de junho de 2010
Estejamos vivos, então?

Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas no supermercado,não arrisca vestir uma cor nova,não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere O "preto no branco"
E os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as que resgatam brilho nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da Chuva incessante,
Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,não perguntando sobre um assunto que desconhece
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!
Pablo Neruda
sexta-feira, 18 de junho de 2010
O Prémio Nobel da Literatura Portuguesa
Morreu José Saramago.
Que as suas cinzas sejam espalhadas na consciência de quem nunca teve a inteligência de saber ouvir e respeitar o Homem argumentista, jornalista, dramaturgo, romancista e poeta português.
É difícil reunir tantas qualidades como homem,convicto e defensor dos oprimidos, o seu estilo literário é único na literatura contemporânea.
Escreve com consciência, a ponto de muitas vezes eu chegar a confundir se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento.
Algumas das suas obras que eu li.
-Levantado do Chão
-Memorial do Convento
-O Ano da Morte de Ricardo Reis
-A Jangada de Pedra
-O Evangelho Segundo Jesus Cristo
-O Ensaio sobre a cegueira
-Intermitências da Morte
-A viagem do Elefante e as Pequenas Memórias, todos me tocaram e me ensinaram que não devemos parar, devemos lutar sempre pelo que queremos em consciência.
Foi sempre um Homem perseguido pelas suas opiniões pessoais sobre a religião, no ataque ao terrorismo internacional, contra a política de Israel e Judeus.
Mais recentemente contra o Papa Bento XVI a quem chamou cínico intelectual e continuou um homem de lutas e de grandes causas.
Foi fundador da Frente Nacional para a Defesa da Cultura.
Saramago deixou a marca que ficará no Povo Português.
É um Homem com História.
Espero um dia poder dizer que li toda a sua obra.
terça-feira, 8 de junho de 2010
O calendário é a vida a passar
Quando tudo é triste, sem emoção, sem brilho, sem destino e sem esperança.É difícil viver.
Quando regresso ao quotidiano, anunciado com o despertador, a dar início de mais um dia terrível e a lembrar que o anterior já acabou....
Sinto frustação.
Mais um dia com inúmeros afazeres, rotineiros sem utilizar imaginação ou inteligência.
Mais um dia marcado com o recomeço de uma luta que teima em que nada aconteça, e os dias aceleram ,e o que tenho marcado como objectivo não se realiza.
E, não faço aquilo que gosto, não consigo chegar lá, não sei bem onde, apenas fico com pequenas realizações.
Já não ultrapasso obstáculos.
Já mal consigo sonhar.
Contudo, quando enfrento esta panóplia de contrariedades e de imposições acabo sempre por não mostrar o medo que eu sinto, mas que tenho, medos reais, imaginários, assumo-os e surpreendo-me por admiti-los.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Às vezes esqueço-me
Ás vezes esqueço-me que já fui feliz, que me adaptava a todas as situações, que corria sem me cansar, que fugia das dificuldades, que ria com alegria pela vida e por tudo o que era meu.Vivi jogos divertidos, animados, ultrapassei obstáculos, barreiras, alcancei metas, ganhei troféus, e mesmo a perder apostas as ilusões permaneciam.
Fui mãe, abracei, beijei e o mundo ficou maravilhoso.
Porém, há um problema, é que eu nunca percebi, que é quando e como começo a dormir.
Esse estado de alma inconsciente que eu não sei, nem posso controlar.
Cresci, continuo crescendo...
E questiono-me será que dormi demais?
domingo, 30 de maio de 2010
Jaime Bayly - Os amigos que perdi
É jovem, periodista e apresentador de televisão Peruano.É um escritor que se destaca pelo discurso directo no livro:
"Os amigos que perdi".
É sensível, sugestivo, este livro gira em torno da homossexualidade e da dependência das drogas, com relevância para a cocaína,na alta sociedade de Lima e dos conflitos interpessoais.
Tem como alcunhas o de "Menino terrível e Gayly" por se ter assumido bissexual, e pelos seus diálogos directos com os amigos devastando toda a sua intimidade.
O seu livro tornou-se num verdadeiro escândalo, mas apesar de todos os seus relatos serem minuciosamente ofensivos, nunca lhe foi apresentado nenhuma queixa crime.
Acabei de ler o livro, e para os menos sensíveis recomendo.
Funchal